quarta-feira, 15 de abril de 2015


Para economista, primeiro a população brasileira precisa compreender sobre educação financeira para depois discutir finanças ambientais

Por Susana Sarmiento – Portal Setor3 (Senac SP)




“Há um confronto com economia verde. Nós vimos como algo que vem de cima para baixo, como uma implementação de uma agenda de venda rápida, para legislar, dar números e estatísticas”, pontuou a economista Amyra El Khalili, que atuou por quase duas décadas no mercado financeiro e é fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e editora da Aliança RECOs (Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras).
 
Para a professora de cursos de extensão e MBAs em diversas universidades, Amyra defende a economia socioambiental, que é construída com o tempo e inclui diferentes atores sociais. “A economia verde está atrelada à agenda política, transitória e depende da agenda de governo”.

Autora do e-book gratuito Commodities Ambientais em missão de paz - novo modelo econômico para a América Latina e o Caribe, da editora Nova Consciência, Amyra fala com Setor3 sobre importância de unir finanças com cultura de paz, a atuação da Aliança RECOs, a avaliação do impacto de serviços ambientais e sua avaliação sobre o debate de práticas de economia verde.

Portal Setor3- Como é possível alinhar nos projetos da Aliança a área financeira e a cultura de paz?
Amyra El Khalili- É importante esclarecer que a Aliança RECOs reúne diferentes organizações e movimentos. Não somos uma ONG, mas uma rede de estudos e pesquisas ancorada no tripé informação, educação e comunicação. Compartilhamos conteúdos de diversas fontes e regiões para mídia nacional e internacional.

Nesse caso, é necessário alinhar esses dois temas, pois o setor financeiro é responsável pelo financiamento do mercado de armas e todo aparato gerador de guerras e misérias. Atualmente, há três principais mercados mundiais ilícitos: o de armas, o do narcotráfico, e o da biopirataria. Esse dinheiro passa pelo sistema financeiro. Se os bancos e as corretoras  estivessem dispostos a combater crimes e corrupções, o primeiro aliado para alcançar a paz seria o próprio sistema financeiro, que poderia perfeitamente identificar, rastrear e confiscar as contas com provas criminais mas,  infelizmente, são protegidas pelo sigilo bancário e fiscal. Dessa forma, a Aliança RECOs nasceu em 1996, justamente para combater a corrupção no mercado financeiro, denunciando seus impactos nas questões sociais e ambientais e cobrando a sua responsabilidade socioambiental, quando deveriam financiar projetos alternativos que exigem muito menos recursos. Defendemos projetos socioambientais que contribuem com a segurança pública, combate às drogas, a violência contra a mulher, a redução da criminalidade, que gerem emprego, ocupação e renda, e a preservação e conservação ambiental.

Portal Setor3 - De que forma vocês dialogam economia, sustentabilidade, meio ambiente, cultura de paz em suas ações?
AEK- Atuamos na construção de um novo modelo econômico e do empoderamento dos movimentos sociais e ambientais com a nossa experiência profissional no mercado de capitais. Antes de idealizar um projeto socioambiental, é necessário disponibilizar a sociedade informações técnico-científicas de fácil compreensão. Então, muitas vezes as comunidades não sabem lidar com captação de recursos. Quando estas ONGs e entidades recebem recursos de uma empresa estatal como a Petrobras, pergunto: será que estão preparadas para mexer com dinheiro? será que sabem prestar contas? como se dá essa relação entre agir e gastar dinheiro? Muitas ONGs e instituições conseguem fazer bons trabalhos justamente por não terem dinheiro, o que move seus associados e membros é a causa. Em muitos casos, quando entra o recurso financeiro ao invés de ajudar, atrapalha. A nossa função é questionar esse modelo para que os atores sociais se informem melhor sobre as alternativas e riscos para tomar decisões. Afinal, recusar dinheiro também é um direito que eles têm, como é o caso dos projetos oriundos mercado de carbono.

Portal Setor3- Quais casos você observa que a informação fez diferença sim para melhorar a qualidade de vida daquela comunidade?

AEK- Não há como indicar uma comunidade específica já que atuamos no Brasil e exterior. Há vários casos que poderiam ser citados, de acordo com a emergência e credibilidade das fontes. Por exemplo: demos visibilidade para as denúncias feitas com projetos do mercado de carbono e pagamentos por serviços ambientais no Acre. Aparecia na mídia e nos relatórios institucionais com uma única visão: a do governo, das ONGs e consultores que estão advogando a favor da economia verde nessa região.  Demos vozes para ativistas, pesquisadores, lideranças indígenas e sindicais do Acre que tem muitas críticas ao mercado de carbono, com o REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), pagamentos por serviços ambientais, Bolsa Verde, entre outros instrumentos.

Para avaliar a qualidade de vida, como é possível assinar um projeto que compromete o uso da terra e coloca em risco essa comunidade ao endividá-los? Ou seja, não é apenas ter recursos e melhorar a qualidade de vida, sobretudo evitar os conflitos, confrontos e violências com abusos contra os direitos humanos e o ambiente, bem como fiscalizar e monitorar a origem e aplicação dessas verbas, sejam públicas, ou privadas. Agimos em duas frentes: primeiro orientar para produção de um projeto econômico financeiro e jurídico com a mudança de paradigma; e a outra é divulgar e publicar os relatórios de dezenas de cidades elaborados pelos meus alunos, formadores de opinião e lideranças que participaram dos cursos e oficinas que ministrei, bem como os relatórios de outras frentes. Tenho certeza que em todos os lugares que aplicamos essa metodologia educacional formando multiplicadores com troca de experiências e debates sobre a cadeia produtiva de bens e serviços,  discutindo problemas e soluções. Alguma coisa naquele local mudou.

No Acre, a convite do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), disse em uma palestra na Universidade Federal do Acre sobre o mercado de carbono e pagamentos de serviços ambientais. Fiz uma crítica sobre a lei Sisa, que repercutiu em mídia nacional e internacional. Sugiro assistir a palestra: http://goo.gl/9us5JT. E ler os artigos, em português: http://goo.gl/v8rGP7. Também há versão em inglês: http://goo.gl/RmYedz

Apoiamos e divulgamos o Dossiê Acre - Documento Especial para a Cúpula dos Povos - O Acre que os mercadores da natureza escondem. Publicado pelo Cimi, da regional Amazônia Ocidental, o documento foi feito em 2012 e não tinha ainda conseguido o merecido espaço na mídia e nos mais diversos fóruns de debate. A posição do Dossiê Acre era vista com negligência, descaso e criminalização. Na mídia, não abordavam o ponto de vista técnico, operacional e jurídico-socioeconômico que aponta esse estudo e de como essas políticas de cima para baixo interferem no modo de vida das comunidades indígenas, tradicionais e campesinas naquela região.

Portal Setor3- Em sua avaliação, como a população em geral pode acompanhar esses dados e entender melhor desses serviços ambientais?

AEK- Podem acompanhar os conteúdos assinando nossos boletins pelo e-mail: becerecos-subscribe@yahoogrupos.com.br. Para acessar os boletins:https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/becerecos/info

Sou professora de diferentes cursos de extensão, de pós-graduação e MBAs aplicando metodologia da Aliança RECOs. Os participantes das oficinas e cursos produzem relatórios, que indicam o mapa da região, o perfil da população, características do bioma, identificam as potencialidades alternativas da biodiversidade. Dessa forma, podem apresentar os problemas, como água contaminada e enfrentamento de violência, de drogas, degradação ambiental por exemplo e proporem soluções. É daí que idealizam seus projetos socioambientais e buscam encontrar formas de viabilizá-los.

Atualmente, na Aliança, temos mais de cinco mil distribuidores, multiplicadores e parceiros na produção e disseminação de informação. Como parceiros temos os sites do Jornal Pravda.ru (russo, italiano, português e inglês), com quatro milhões de acessos por mês, o AgoraVox (Francofono - Bruxelas), a revista Diálogos do Sul (português e espanhol) , a Rede Brasileira de Informação Ambiental (Portal do Meio Ambiente), o Jornal O Nortão, a EcoAgência de Notícias, o Portal Biodiversidad en América Latina y El Caribe, e tantos outros, além das redes temáticas que reproduzem e publicam nosso material (REMA, blogs SOS Rios do Brasil, Rede Global da Sociedade Civil e outros), que possuem outra quantidade enorme de acessos e membros. Temos ainda parceria com redes de radialistas, como a Rádio Mundo Real (ONG Amigos da Terra), do Programa Planeta Lilás (Rádio MEC-RJ, da EBC), entre outras.

Sou membro do conselho editorial e colaboradora da Revista Fórum de Direito Urbano e Ambiental (FDUA), parceira na publicação dos relatórios e diversos artigos. São essas parcerias e “nós de comunicação”, que formam a “aliança” que fará 20 anos no próximo ano com trabalho voluntário, sem recursos de empresas e de governo. Não somos a mídia. Somos a fonte para a imprensa ter contraponto. Apoiamos a mídia alternativa para que também possa ser financiada, já que nos presta um serviço de utilidade pública da maior relevância.

Portal Setor3 - Como você avalia a situação dos serviços ambientais, como mercado de carbono, REDD e outras práticas, aqui no Brasil? Como ampliar o debate sobre o impacto desses serviços para toda população?
AEK- Participamos do movimento internacional contra a mercantilização e financeirização dos bens comuns, que são contra o modelo econômico financeiro dos pagamentos por serviços ambientais, o mercado de carbono, o REDD, créditos de compensação e títulos ambientais negociados em Bolsas de Valores e de Commodities, já são propostas que foram transformadas em leis em outros países, inclusive aqui no Brasil estão sendo implementadas (Lei Sisa, do Acre). Foi um desastre, conforme denuncia a edição especial do Jornal Porantim e relatórios da Plataforma Dhesca, que podem ser acessados aqui.

Quando uma proposta vira legislação, ela não é mais um debate público, passa a ser uma norma. Para legislar com eficiência, de forma que a lei pegue e seja bom para toda a sociedade, é necessário ter antes um amplo debate público. Em muitos países isso não aconteceu. Sugiro conhecer aqui o REDD Monitor e WRM, respectivamente: http://www.redd-monitor.org/ e www.wrm.org.uy

Foi por forças de interesses dos governos locais, políticos e forte lobby de corporações transnacionais. Aqui, no Brasil, não está sendo diferente. Apesar de muitas organizações e comunidades serem contra todos esses mecanismos, para que suas vozes sejam ouvidas desde a base da sociedade, ainda falta longa estrada. Também a transversalidade da questão ambiental ainda é muito recente para ser assimilada pelo interesse público e obter a consciência da sociedade como um todo. Como legislar sobre um tema tão complexo e recente como finanças ambientais? Como falar das interfaces multidisciplinar do tema e traduzir essa linguagem para a população?
Portal Setor3- Qual ator está mais avançado nesse debate, de democratizar mais essa informação?
AEK- Nessa discussão de finanças ambientais, não estamos avançando pois há ainda muita confusão conceitual, o que torna-se um perigo nos desenhos dos contratos financeiros e mercantis. A linguagem de finanças é restrita para quem entende e atua no ramo. Há um retrocesso nos instrumentos de financiamento (fomentam) e um avanço nos instrumentos que financeirizam (endividam). Nem o mercado acionário no Brasil é popular, muito menos o mercado de commodities e derivativos, relativamente novo nesse continente, é compreendido. A própria palavra commodities dá confusão. Ela nem é traduzida ao português e espanhol por tratar-se de uma expressão de comércio exterior e de produção em escala industrial, além de ser um jogo financeiro.

Antes de fazer legislação para finanças ambientais, por que a população não briga para reduzir a taxa de juros do cartão de crédito e limite do cheque especial? Como entra o cartão de crédito na vida de cidadãos que não sabem nem usar o crédito, depois pagam o mínimo e entra no sistema rotativo e necessita pagar taxa de juros de 19% ao mês. E se replicamos esse “modus operandi” no mercado financeiro ambiental, que envolve terra, território, água, é muito complicado. Entendo que a nova economia é viável por meio de projetos pequenos e pontuais. Porém, o interesse dos consultores, de empresas e dos governantes é por grandes projetos, pelo alto recurso envolvido. Portanto, é necessário quebrar a acumulação e distribuir melhor a renda, evitando projetos com infraestruturas inalcançáveis.  É necessário ampliar a quantidade de pessoas beneficiadas com inclusão socioambiental. Não é à toa que tem tanta corrupção pela concentração de muito dinheiro nas mãos de poucos.

Portal Setor3 - Quais são suas perspectivas no debate de economia verde? Qual segmento está mais avançado e está considerando as necessidades de populações tradicionais? 

AEK- O problema é que a economia verde vem de cima para baixo e de fora para dentro. É um projeto decidido pela ONU, com governantes e corporações conforme denunciamos na COP 19. Interessante ler esse artigo, em português: http://goo.gl/tRiaI7. Também há versão em espanhol: http://goo.gl/sVgPkG

Por esses motivos, construímos coletivamente a economia socioambiental, diferentemente da economia verde. A economia socioambiental passa por um processo de consulta aos povos e é lento. É de baixo para cima e de dentro para fora. Não acompanha a agenda da próxima eleição, de quatro em quatro anos. Todo trabalho de consulta e construção coletiva demora anos, dada as dificuldades de chegar onde poucos conseguem em regiões afastadas e sem acesso à comunicação. Locais onde a população mais necessita de assistência e orientação e com mais impactos sociais e ambientais. A economia socioambiental não pode depender da agenda governamental. Muitas vezes contraria fortes interesses políticos e econômicos. Ela tem que seguir seu caminho natural com adesão dos atores sociais, sem imposição goela abaixo por normas e regras, respeitando-se os direitos constitucionais duramente conquistados. Há quase 20 anos trabalhamos nesse projeto de envergadura geopolítica pela cultura de paz, cujo o resultado se dará a longo prazo. Não buscamos resultados imediatos, mas duradouros e verdadeiramente sustentáveis formando “alianças” inquebrantáveis.

quinta-feira, 13 de março de 2014

As commodities ambientais e a financeirização da natureza.

Entrevista especial com Amyra El Khalili

“A financeirização da natureza é a ação de tornar financeiro aquilo que é eminentemente econômico. Isso porque a melhora da qualidade de vida também é uma questão econômica”, propõe a economista.

De acordo com o Ministério da Agricultura, durante o ano de 2013 o agronegócio brasileiro atingiu a cifra recorde de 99,9 bilhões de dólares em exportações. Soja, milho, cana ou carne ganham os mercados externos na forma de commodities: padronizadas, certificadas e atendendo a determinados critérios e valores regulados internacionalmente.

Para a economista Amyra El Khalili, no entanto, as monoculturas extensivas não deveriam ser a única alternativa de produção brasileira. A movimentação econômica envolvendo as commodities tradicionais exclui do processo os pequenos e médios produtores, extrativistas, ribeirinhos e as populações tradicionais. Sem grandes incentivos governamentais, sem investimento para atingir os elevados padrões de qualidade nacionais e internacionais ou capacidade produtiva para atingir os mercados, estes permanecem sempre à margem do sistema.

Foi com base no raciocínio da inclusão que a economista de origem palestina criou o conceito de commodity ambiental. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ela aborda a polêmica dos créditos de carbono (uma “comoditização da poluição”), questiona o fornecimento de créditos por Redução de Emissões por Desmatamento (Redd) para o agronegócio e descreve o conceito inicial criado por ela. “Uma commodity tradicional é a matéria-prima extraída do ecossistema, que é manufaturada, padronizada por um critério internacional de exportação adotado entre transnacionais e governos”. Por outro lado, a commodity ambiental “também terá critérios de padronização, mas adotando valores socioambientais e um modelo econômico totalmente diferente”.


Khalili, que durante mais de 20 anos atuou como operadora de ouro no mercado financeiro, relata que o termocommodity é usado como uma provocação. O conceito está em permanente construção, mas atualmente representa o produto manufaturado pela comunidade de forma artesanal, integrada com o ecossistema e que não promove impacto ambiental. A commodity convencional privilegia a monocultura, a transgenia e a biologia sintética, com seus lucros concentrados nos grandes proprietários. A ambiental é pautada pela diversificação de produção, pela produção agroecológica e integrada, e privilegia o associativismo e o cooperativismo.

Amyra El Khalili é economista graduada pela Faculdade de Economia, Finanças e Administração de São Paulo. Atuou nos Mercados Futuros e de Capitais como operadora da bolsa, com uma carteira de clientes que ia do Banco Central do Brasil à Bombril S/A e ao Grupo Vicunha. Abandonou o mercado financeiro para investir seu tempo e energia no ativismo. É idealizadora do projeto da Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais, fundadora doMovimento Mulheres pela P@Z e editora da Aliança RECOs (Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras).Khalili ministra cursos de extensão e MBA em diversas universidades, por meio de parcerias entre a rede, entidades locais e centros de pesquisa. É autora do e-book gratuito Commodities Ambientais em missão de paz - novo modelo econômico para a América Latina e o Caribe (São Paulo: Nova Consciência, 2009).


Confira a entrevista.


Foto: Clarinha Glock - IPS




IHU On-Line - Existe diferença entre comoditização da natureza e financeirização da natureza? Quais?


Amyra El Khalili – Existe, mas uma acaba interferindo na outra. A comoditização da natureza é transformar o bem comum em mercadoria. Ou seja, a água, que na linguagem jurídica é chamada de bem difuso, deixa de ser bem de uso público para ser privatizada, para se tornar mercadoria. A financeirização é diferente, é a ação de tornar financeiro aquilo que é eminentemente econômico.


Isso porque a melhora da qualidade de vida também é uma questão econômica. Uma região onde as pessoas conseguem conviver com a natureza e tem acesso à água limpa, por exemplo, oferece um custo financeiro melhor, onde você vive melhor e gasta menos. Isso também tem fundamento econômico.

IHU On-Line - No caso da financeirização da natureza, o que se encaixaria nessa descrição?

Amyra El Khalili - A nossa obrigação de pagar por serviços que a natureza nos faz de graça e que nunca foram contabilizados na economia, como sequestrar o carbono da natureza, por exemplo. As árvores sequestram o carbono naturalmente, mas para ter qualidade de ar daqui para frente é preciso pagar para respirar. Nessa lógica, aquele que respira precisa pagar pelo preço daquele que poluiu, enquanto este deixa de ser criminalizado e recebe flexibilidade para não ser multado.

IHU On-Line - Você foi a criadora do conceito de commodities ambientais, que é bem diferente da comoditização da natureza. Qual era a sua proposta inicial para o termo?

Amyra El Khalili – Uma commodity tradicional é a matéria-prima extraída do ecossistema, que é manufaturada, padronizada por um critério internacional de exportação adotado entre transnacionais e governos. Os pequenos e médios produtores, os extrativistas e ribeirinhos, entre outros, não participam dessas decisões. O ouro, minério, não é uma commodity enquanto está na terra, é um bem comum. Ele torna-se uma quando é transformado em barras, registrado em bancos, devidamente certificado com padrão de qualidade avaliado e adequado a normas de comercialização internacional.

A commodity ambiental também terá critérios de padronização, mas adotando valores socioambientais e um modelo econômico totalmente diferente. O conceito está em construção e debate permanente, mas hoje chegamos à seguinte conclusão: a commodity ambiental é o produto manufaturado pela comunidade de forma artesanal, integrada com o ecossistema e que não promove o impacto ambiental como ocorre na produção de commodities convencionais.

A convencional (soja, milho, café, etc.) é produzida com monocultura e a ambiental exige a diversificação da produção, respeitando os ciclos da natureza de acordo com as características de cada bioma. A convencional caminha para transgenia, para biologia sintética e geoengenharia; a outra caminha para a agroecologia, permacultura, agricultura alternativa e de subsistência, estimulando e valorizando as formas tradicionais de produção que herdamos de nossos antepassados. A convencional tende a concentrar o lucro nos grandes produtores, já a ambiental o divide em um modelo associativista e cooperativistas para atender a maior parte da população que foi excluída do outro modelo de produção e financiamento.

O Brasil concentra sua política agropecuária em cinco produtos da pauta de exportação (soja, cana, boi, pinus e eucaliptos). A comoditização convencional promove o desmatamento, que elimina a biodiversidade com a abertura das novas fronteiras agrícolas. Nós somos produtores de grãos, mas não existe apenas essa forma de geração de emprego e renda no campo. Quantas plantas nós temos no Brasil? Pense na capacidade da riqueza da nossa biodiversidade e o que nós poderíamos produzir com a diversificação. Doces, frutas, sucos, polpas, bolos, plantas medicinais, chás, condimentos, temperos, licores, bebidas, farinhas, cascas reprocessadas e vários produtos oriundos de pesquisas gastronômicas. Sem falar em artesanato, reaproveitamento de resíduos e reciclagem. O meio ambiente não é entrave para produzir, muito pelo contrário.


IHU On-Line - Como é possível transformar em commodity algo produzido de forma artesanal?

Amyra El Khalili – O termo é justamente uma provocação. Na commodity ambiental utilizamos critérios de padronização reavaliando os critérios adotados nas commodities tradicionais. Por isso cunhei o termo para explicar a“descomoditização”. No entanto, diferentemente das convencionais, os critérios de padronização podem ser discutidos, necessitam de intervenções de quem produz e podem ser modificados. Nas commodities ambientais, o excluído deve estar no topo deste triângulo, pois os povos das florestas, as minorias, as comunidades que manejam os ecossistemas é que devem decidir sobre esses contratos, critérios e gestão destes recursos, uma vez que a maior parte dos territórios lhes pertence por herança tradicional.

Com objetivo de estimular a organização social, cito um exemplo de comercialização associativista e cooperativista bem-sucedida. É o caso dos produtores de flores de Holambra (SP). Além de produzirem com controle e gestão adequados às suas necessidades, a força da produção coletiva e o padrão de qualidade fizeram com que o seu produto ganhasse espaço e reconhecimento nacional.


Hoje você vê flores de Holambra até na novela da Globo. Essa produção, porém, ainda está no padrão de commodities convencional, pois envolve o uso de agrotóxicos. Mesmo assim conseguiu adotar outro critério para decidir sobre a padronização, comercialização e precificação, libertando-se do sistema de monocultura. A produção de flores é diversificada, o que faz com que o preço se mantenha acima do custo de produção, auferindo uma margem de lucro para seus produtores.

Inspirados no exemplo de comercialização da Cooperativa Agrícola de Holambra com o sistema de Leilão de Flores (Veiling), desenvolvemos um projeto de comercialização das commodities ambientais, além de novos critérios integrados e participativos de padronização com associativismo. No entanto, o governo também precisa incentivar mais esse tipo de produção alternativa e comunitária. A Anvisa, por exemplo, exige normas de vigilância sanitária e padrões de industrialização que tornam inacessível para as mulheres de Campos dos Goytacazes colocarem suas goiabadas nos supermercados brasileiros (para além de sua cidade). Quem consegue chegar aos supermercados para vender um doce? Só a Nestlé, só as grandes empresas.

E o questionamento que está sendo feito é justamente esse. Abrir espaço para que pessoas como as produtoras de doces saiam da margem do sistema econômico. Que elas também possam colocar o seu doce na prateleira e este concorra com um doce industrializado, com um preço que seja compatível com sua capacidade de produção. Não é industrializar o doce de goiaba, mas manter um padrão artesanal de tradição da goiabada cascão. Se nós não tivermos critérios fitossanitários para trazer para dentro essa produção que é feita à margem do sistema, elas vão ser sempre espoliadas e não terão poder de decisão. O que se pretende é que se crie um mercado alternativo e que esse mercado tenha as mesmas condições, e que possam, sobretudo, decidir sobre como, quando e o que produzir.

IHU On-Line – O termo commodities ambientais é por vezes utilizado de maneira distorcida, como que fazendo referência às commodities tradicionais, mas aplicada a assuntos ambientais, como os créditos de carbono. De que modo foi feita essa apropriação?

Amyra El Khalili – Ele foi apropriado indevidamente pelos negociantes do mercado de carbono. Eles buscavam um termo diferente da expressão “créditos de carbono”, uma palavra que já denuncia um erro operacional. Afinal, se você quer reduzir a emissão, por que creditar permissões para emitir? Contadores, administradores de empresa e pessoas da área financeira não entendiam como se reduz emitindo um crédito que entra no balanço financeiro como ativo e não como passivo.


Como o nome créditos de carbono não estava caindo na graça de gente que entende do mercado, eles pegaram a expressão commodities ambientais para tentar justificar créditos de carbono. Porque na verdade estavam comoditizando a poluição e financeirizando-a. É o que consideramos prática de assédio conceitual sub-reptício: quando se apropriam das ideias alheias, esvaziam-nas em seu conteúdo original e preenchem-nas com conteúdo espúrio. É importante salientar que esse “modus operandi” está ocorrendo também com outras iniciativas e temas como a questão de gênero e étnicas. Bandeiras tão duramente conquistadas por anos de trabalho e que nos são tão caras.

IHU On-Line - Os defensores da Redução Certificada de Emissão promovida pelos Créditos de Carbono afirmam que apesar desse recurso oferecer aos países industrializados uma permissão para poluir, o governo estabelece um limite para estas transações. Você concorda com tal afirmação?

Amyra El Khalili – Esse controle tanto não é feito de maneira adequada, que desde 2012 há uma polêmica no parlamento europeu de grupos que exigem que a Comunidade Europeia retenha 900 milhões de permissões de emissão autorizadas após o mercado ter sido inundado por estas permissões (cap and trade). São permissões auferidas pelos órgãos governamentais que foram vendidas quando a cotação dos créditos de carbono estava em alta e agora caíram para quase zero.


Então na teoria pode ser muito bonito, mas entre a teoria e a prática há uma distância oceânica. Há também o seguinte: ainda que você tenha o controle regional, a partir do momento que um título desses vai ao mercado financeiro e pode ser trocado entre países e estados em um sistema globalizado, quem controla um sistema desses? Se internamente, com os nossos títulos, às vezes ocorrem fraudes e perda de controle tanto com a emissão quanto com as garantias, como se vai controlar algo que está migrando de um canto para outro? É praticamente impossível controlar volumes vultosos de um mercado intangível e de difícil mensuração.

IHU On-Line - A China e a Califórnia planejam utilizar os arrozais como fonte para créditos de carbono, o que levou a uma reação da comunidade ambiental com o movimento No-Redd Rice. Em que consiste o movimento e por que ele é contrário a este acordo?

Amyra El Khalili – O REDD, a Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, é a compra de um título em créditos de carbono sobre uma área de floresta que deve ser preservada. Trata-se de mais um exemplo de financeirização da natureza, pois vincula a comunidade local a um contrato financeiro em que ela fica impedida de manejar a área por muitos anos, enquanto a outra parte do contrato continua produzindo e emitindo poluição do outro lado do mundo.


No caso do arroz com REDD, acontece o seguinte: com o entendimento de que uma floresta sequestra carbono, e que é possível emitir créditos de carbono sobre uma área preservada de floresta, o argumento é que a plantação também sequestra. O transgênico inclusive sequestra mais carbono do que a agricultura convencional, porque a transgenia promove o crescimento mais rápido da planta e acelera o ciclo do carbono. Então qualquer coisa que você plantar na monocultura intensiva, como a cana ou a soja, vai sequestrar carbono também. E, por isso, o agronegócio deseja emitir créditos de carbono também para a agricultura. Podemos dizer que não sequestra? Não, realmente sequestra, mas e quanto aos impactos ambientais?

O movimento internacional contra REDD com Arroz está se posicionando porque isso pressionará toda produção agropecuária mundial, colocando os médios e pequenos produtores, populações tradicionais, populações indígenas novamente reféns das transnacionais e dos impactos socioambientais que esse modelo econômico excludente está causando, além de afetar diretamente o direito à soberania alimentar dos povos, vinculando o modelo de produção à biotecnologia e com novos experimentos bio-geo-químicos.

IHU On-Line - O problema é que, se o crédito de carbono foi criado com o objetivo de diminuir os impactos ambientais, não se pode colocar sob uma monocultura que gera impactos da mesma forma a possibilidade de solução do problema, correto?


Amyra El Khalili – Exatamente. Outra coisa importante é que, mesmo com o conceito commodity ambiental estando em construção coletiva e permanentemente em discussão, hoje nós temos a certeza do que não é uma commodity ambiental. Elas não são transgênicas, nem podem ser produzidas com derivados da biotecnologia — como biologia sintética e geoengenharia. Não são monocultura, não podem se concentrar em grandes produtores, não causam doenças pelo uso de minerais cancerígenos (amianto), não usam produtos químicos, nem envolvem a poluição ou fatores que possam criar problemas de saúde pública, pois estes elementos geram enormes impactos ambientais e socioeconômicos.

A produção agrícola, como é feita hoje, incentiva o produtor a mudar sua produção conforme o valor pago pelo mercado. Então se a demanda for de goiaba, só se planta goiaba. Nas commodities ambientais, não. Não é o mercado, mas o ecossistema que tem o poder de determinar os limites da produção. Com a diversificação da produção, quando não é temporada de goiaba é a de caqui, se não for caqui na próxima safra tem pequi e na seguinte melancia. Se começarmos a interferir no ecossistema para manter a mesma monocultura durante os 365 dias do ano, vamos gerar um impacto gravíssimo.

IHU On-Line – O que é a água virtual e como esse conceito se encaixa na discussão de commodities?

Amyra El Khalili – A água virtual é a quantidade de água necessária para a produção das commodities que enviamos para exportação. No Oriente Médio, ou em outros países em crise de abastecimento, como não há água para a produção agrícola extensa a alternativa é importar alimento de outros países. Quando se está importando alimento, também se importa a água que este país investiu e que o outro deixou de gastar.


O que se defende na nossa linha de raciocínio é que, quando exportamos commodities tradicionais (soja, milho, boi, etc.), se pague esta água também. No entanto, não é paga nem a água, nem a energia ou o solo gasto para a produção daquela monocultura extensiva. A comoditização convencional, no modelo que temos no Brasil há 513 anos, é altamente consumidora de energia, de solo, de água e biodiversidade, e esse custo não está agregado ao preço dacommodity. O produtor não recebe este valor, pois vende a soja pelo preço formado na Bolsa de Chicago. Quem compra commodity quer pagar barato, sempre vai pressionar para que este preço seja baixo.

Ainda sobre a água, se é na escassez dos recursos que estes passam a ser valorizados como mercadoria, quais as perspectivas de uma crise mundial no abastecimento hídrico?

Amyra El Khalili – Eu considero a questão hídrica a mais grave e mais emergencial no mundo. Sem água não há vida, ela é essencial para a sobrevivência do ser humano e de todos os seres vivos. A falta de água é morte imediata em qualquer circunstância. No Brasil não estamos livres do problema da água. Muita dessa água está sendo contaminada com despejo de efluentes, agrotóxicos, químicos e com a eminência da exploração de gás de xisto, por exemplo, onde a técnica usada para fraturar a rocha pode contaminar as águas subterrâneas.

Os pesquisadores e a mídia dão ênfase muito grande para as mudanças climáticas, que é a consequência, sem aprofundar a discussão sobre as causas. Dão destaque para o mercado de carbono como “a solução”, sem dar prioridade para a causa que é o binômio água e energia. O modelo energético adotado no mundo colabora para esses desequilíbrios climáticos, se não for o maior responsável entre todos os fatores. Nós somos totalmente dependentes de energia fóssil, e no Brasil temos um duplo uso da água: para produzir energia (hidrelétricas) e para produção agropecuária e industrial, além do consumo humano e de demais seres vivos.


E por que é necessário produzir tanta energia? Porque nosso padrão de consumo é altamente consumidor. Seguimos barrando rios e fazendo hidrelétricas, e quando barramos rios, matamos todo o ecossistema que é dependente do ciclo hidrológico. Caso o binômio água e energia seja resolvido, também será resolvido o problema da emissão de carbono. Quando se resolve a questão hídrica, recompomos as florestas, as matas ciliares, a biodiversidade. O fluxo de oxigênio no ambiente e a própria natureza trabalhará para reduzir a emissão de carbono. Se não atacarmos as causas ficaremos circulando em torno das consequências, sem encontrarmos uma solução real e eficiente para as presentes e futuras gerações.


(Por Andriolli Costa)


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Economia sócio ambiental é tema de entrevista no Rondônia TV


Assista a entrevista AMYRA EL KHALILI:
Economia Socioambiental versus Economia Verde

Rondônia TV – Rede Globo Rondônia – Porto Velho-RO
Jornal Rondônia – 25/11/2013 às 12:00hs
Entrevistadora: Ana Lídia


Assista em:

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Amyra El Khalili: Roubo e extermínio étnico duplamente disfarçado


Amyra El Khalili: Roubo e extermínio étnico duplamente disfarçado
Amyra El Khalili é especialista em sustentabilidade e mercado financeiro e professora de engenharia financeira. A partir do seu conhecimento prático sobre o mercado de commodities e derivativos, professora Khalili vem analisando no seu artigo "Economia Verde: o subprime ambiental" os mecanismos financeiros propostos pela Economia Verde.
Palestra de professora Amyra El Khalili em vídeo
Assista em:

Amyra El Khalili  é especialista em sustentabilidade e mercado financeiro e professora de engenharia financeira. A partir do seu conhecimento prático sobre o mercado de commodities e derivativos, professora Khalili vem analisando, entre outros no seu artigo "Economia Verde: o subprime ambiental" os mecanismos financeiros propostos pela Economia Verde e apontando para os perigos das falsas soluções que vem sendo implementados por meio de projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação - REDD e serviços ambientais.
A palestra foi realizada durante a  mesa redonda "Finaceirização da Natureza e espoliação nos Territórios Indígenas e Camponeses na Amazônia", organizada pelo Conselho Indigenista Misionário (CIMI) Federação do Povo Huni kui do Acre (FEPHAC), Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STTR- Xapuri), Conselho de Missão entre Índios (COMIN) e o Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental da Universidade Federal do Acre (NUPESDAO /UFAC), realizada na sexta-feira, dia 12 de abril 2013, as 19:00hs no Anfiteatro Garibaldi Brasil da UFAC - Universidade Federal do Acre. (1)
A professora Amyra El Khalili estará proferindo palestras, segunda-feira,  dia 25 de novembro 2013, na Fundação Universidade Federal de Rondônia - UNIR, no Auditório do NUCSA, Campus José Ribeiro Filho, às 19:00hs e no XII Seminário Internacional de Sustentabilidade, das 8h às 17h, no SENAC - Esplanada, Porto Velho - RO. Amyra será também homenageada com a categoria "Benefícios à Humanidade", entre outros,  no XII Prêmio Ecoturismo & Energias Renováveis. (3)
(1)   Um "Keffiyeh" para o líder indígena Ninawá Huni Kuin - http://port.pravda.ru/mundo/18-06-2013/34785-keffiyeh_indigena-0/
(2)   A captura corporativa da COP19 - http://port.pravda.ru/mundo/12-11-2013/35608-cop-0/
(3)   Prêmio Ecoturismo & Energias Renováveis 2013- http://port.pravda.ru/cplp/brasil/14-11-2013/35632-premio-0/
Fontes: Jornal Acrealerta e  Revista Ecoturismo

Prêmio Ecoturismo & Energias Renováveis 2013

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Prêmio Ecoturismo & Energias Renováveis 2013!
Em 22 anos de existência, o Grupo Ecoturismo teve decisivas participações em significativos movimentos ambientais nacionais e internacionais. O Prêmio Ecoturismo, em sua décima segunda edição, figura como um dos braços de atuação de nossa Entidade: reconhecer e premiar ações positivas em destaque em prol do desenvolvimento sustentável.
O Prêmio Ecoturismo & Energias Renováveis 2013 visa reconhecer iniciativas em destaque pelas contribuições ao trade de Ecoturismo e Energias Renováveis. As iniciativas devem promover com excelência suas ações com foco no desenvolvimento sustentável a curto e longo prazo.
O Grupo Ecoturismo  vai celebrar e conferir a entrega de láureas sustentáveis a quatro celebridades no próximo dia 25 de novembro de 2013, no Senac Esplanada, juntamente com o XII Seminário Internacional de Sustentabilidade.
O Prêmio Ecoturismo foi criado no ano de 2002  pelo Jornal Ecoturismo nos anos 80 na região amazônica brasileira.
Os contemplados com o Prêmio na edição 2013 ganharão um certificado e um troféu criado pelo renomado Escultor Osni Branco, de criação exclusiva para a premiação.
Em 2013 o XII Prêmio Ecoturismo & Energias Renováveis escolheu quatro importantes nomes para sociedade que refletem e levam o Brasil para o mundo com suas ações, seus trabalhos e conquistas alcançadas ao longo de suas vidas profissionais de sucesso e escolhas bem feitas e definidas. Figuras que mais do que prêmios merecem servir de exemplo e espelho para as futuras gerações.
Na categoria de " Inclusão Social"  o laureado é o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula Silva;   na categoria de "Sustentabilidade Cultural" o premiado é o cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho; na categoria "Benefícios à Humanidade" a premiada é a economista brasileira e palestina Amyra El Khalili que já recebera, há anos, a indicação ao "Mil Mulheres para o Nobel da PAZ", como uma das mulheres mais influentes e ações sustentáveis em prol das mulheres de todo o mundo; na categoria de "Indústria Automobilística Sustentável"  o  premiado é o guajaramirense rondoniano Carlos Goshn.

Sobre os premiados:

Amyra El Khalili - A economista e ambientalista não mede palavras para defender que ou economia e ambiente andam juntos ou ambos vão desaparecer. A economista, além, de ser uma das homenageadas será também uma das palestrantes centrais fazendo uma análise crítica sobre a chamada "economia verde" e descorrerá sobre a captura coorporativa da COP19.

Carlos Ghosn - Brasileiro nacionalizado francês nasceu em Guajará-Mirim, Rondônia, atual CEO dos grupos Renault e Nissan é considerado um dos 25 executivos mais influentes do mundo. O atual sonho de um dos CEOs mais poderosos do mundo é o carro elétrico ou veículo verde.

Luiz Inácio Lula da Silva - ex-presidente foi incluído na categoria de Homem do Ano da Inclusão Social, tendo em vista seu relevante papel social, em prol de milhões de brasileiros na inclusão social, com programas, que fazem l década, como Bolsa Família, ProUni, Mais Cisternas,Luiz para Todos, Minha Casa Minha Vida,  programas que cumprindo o triple botton da sustentabilidade, atendem com microcréditos (lado econômico), extinção de fome e miséria (lado social) e inclusão nas terras e agricultura familiar (ambiental)."

Kleber Mendonça Filho - É diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro, nascido em Recife - PE. Ganhou notoriedade após o seu premiado filme O Som ao Redor ter sido incluído na respeitada lista dos 10 melhores do ano do jornal The New York Times. Foi citado pelo jornal britânico Financial Times, em publicação de 2013, como um dos "25 brasileiros que merecem atenção de todo o mundo".

Fonte: Revista Ecoturismo
Telefone: (13) 3223-9650 / (13) 3012-0099
Isabel Tetéo

terça-feira, 29 de outubro de 2013

"É uma ofensa conceitual criar mercado que vende poluição"

Em 2009 Jornal Comércio do Jaú entrevistou Amyra El Khalili, filha de beduíno, 44 anos, autora de Commodities Ambientais em Missão de Paz. Quatro anos depois, está a ser confirmado tudo que ela disse. Reproduzimos a entrevista com a permissão da entrevistada.

AMYRA EL KHALILI proferirá palestra no dia 05/11/2013 (terça-feira) às 10:20hs  na Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS), na cidade de Chapecó-SC com o tema "Commodities Ambientais: o que são?"

Por João Guilherme D´Arcadia
Da redação, 14/11/2009

Ou a humanidade desenvolve um novo processo econômico, baseado na consciência ambiental, ou entrará em colapso. Essa é a opinião da ambientalista e economista Amyra El Khalili, 44 anos, autora de Commodities Ambientais em Missão de Paz (disponível para download em http://amyra.lachatre.org.br). Seu objetivo é capacitar os pequenos produtores para que o solo e os recursos naturais não se esgotem. O esgotamento provocaria guerras, como ocorre no Oriente Médio.
Comércio - A senhora tem uma vasta experiência no mercado financeiro. Quando percebeu que era possível aliar essa experiência com as questões ambientais?

Comércio - A senhora tem uma vasta experiência no mercado financeiro. Quando percebeu que era possível aliar essa experiência com as questões ambientais?
Amyra El Khalili - Minha experiência no mercado financeiro é em commodities e derivativos. O bom operador de commodities tem de conhecer mudanças climáticas, questões energéticas e hídricas. Naturalmente tem de ser um grande ambientalista, é consequência. E eu sempre fui uma menina que gostava do mercado financeiro, o que não significa que eu seja neoliberal. Há uma grande confusão entre modelos econômicos e vocações. Nós vivemos em um modelo neoliberal imposto aos países subdesenvolvidos. 
Comércio - Se a relação entre mercado e meio ambiente é inescapável, as commodities ambientais seriam a única saída? Como elas funcionam?

Comércio - Se a relação entre mercado e meio ambiente é inescapável, as commodities ambientais seriam a única saída? Como elas funcionam?
Amyra - Justamente ao contrário das commodities tradicionais. As convencionais exigem grandes escalas de produção, cada vez mais tecnologia e menos mão-de-obra. Vou empregar um exemplo da região de Jaú, a cana-de-açúcar. Hoje há uma migração, o cortador está sendo substituído por maquinário. Essa pessoa precisa ser capacitada e retirada da condição sub-humana em que muitas vezes ela se encontra. Para se produzir a commodity que eu defendo é preciso inverter tudo. Se de um lado eu tenho mais escala de produção, do outro eu proponho pequena escala. Em vez da monocultura intensiva, vamos fazer diversificação produtiva. Se aqui é transgênico (convencional), nós vamos respeitar o ciclo da natureza (ambiental). Temos de nos preocupar com os recursos e também temos de saber como vamos dividir o dinheiro. É um modelo econômico. Atualmente o lucro está na mão de um grande produtor, de um Blairo Maggi (governador do Estado de Mato Grosso), agora nós vamos falar de lucro para os pequenos. 
Comércio 
- O estudo da senhora sobre commodities ambientais considera como inseri-las no mercado atual, que está aparentemente estabelecido?

Comércio - O estudo da senhora sobre commodities ambientais considera como inseri-las no mercado atual, que está aparentemente estabelecido?
Amyra - Nós precisamos trazer aquilo que está subavaliado para dentro do mercado formal. Não estamos inventando a roda. Precisamos organizar as associações no sentido de aliá-las à comunidade científica para orientar, capacitar e treinar essas pessoas. O que impede isso hoje é a carga tributária, a questão fiscal, a burocracia com que as instituições são estabelecidas... Esses produtos já estão lá, eles só não estão comoditizados*, padronizados, dentro do mercado formal. 
Comércio - E como isso se daria na prática? Como um pequeno produtor iria inserir sua produção na Bolsa de Valores?

Comércio - E como isso se daria na prática? Como um pequeno produtor iria inserir sua produção na Bolsa de Valores?
Amyra - O nome Bolsa se mantém, mas nós precisamos de uma rede de cooperação comunitária onde você encontra parceiros de vocação. Por exemplo, temos um árabe no Oriente Médio que tem um mel especial de pequenos apicultores. Eu, no Brasil, posso me juntar a ele, exportar o mel e fechar o preço dele lá fora. Não há necessidade de cotar isso em Bolsa. 
Comércio - Esses produtores teriam condições de competir com o maior exportador de mel do mundo, por exemplo?

Comércio - Esses produtores teriam condições de competir com o maior exportador de mel do mundo, por exemplo?
Amyra - Não teriam em função de escala de produção, mas quando nós falamos em commodities ambientaispensamos no contrário do modelo convencional. Ele não compete porque ele tem diferencial. O mel que o consumidor vai comprar é diferente porque é uma especiaria.
Comércio - Mas não ficaria muito caro para o consumidor, tendo em vista que é uma produção em pequena escala?

Comércio - Mas não ficaria muito caro para o consumidor, tendo em vista que é uma produção em pequena escala?
Amyra - Não necessariamente. Pode ser que eu consiga consorciar um contêiner exportando várias outras especiarias. Naquela mesma região que tem o mel pode ter a noz, o tempero, a banana. É só dividir tudo isso no mesmo contêiner. O que acontece com o preço da logística? Cai. 
Comércio - O que a senhora pensa sobre os créditos de carbono?

Comércio - O que a senhora pensa sobre os créditos de carbono?
Amyra - A intenção é boa, mas o modus operandi está errado. Nós precisamos eliminar, então, é uma ofensa conceitual criar um mercado que vende poluição. Se o aquecimento global é um problema gravíssimo para a espécie humana, não pode ser objeto de negociação financeira, é objeto de leis e regras. Vamos reduzir isso aí.Você não pode pegar o direito fundamental à vida e à saúde e rasgar para fazer instrumento flexível para reduzir o carbono. Se ele está matando, tem de eliminar o assassino. Você vai ficar dando habeas corpus toda hora para um criminoso? É como aqueles casos em que as empresas jogam produto químico nos rios e aí falam "vamos criar um instrumento flexível para a 'fabriquinha' parar de poluir. 'Tadinha', você só está matando 40 mil pessoas". 
Comércio - Como a senhora avalia a gestão do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc?

Comércio - Como a senhora avalia a gestão do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc?
Amyra - Eu não quero avaliar o Minc porque aí eu precisaria avaliar a Marina (Silva, ex-ministra do Meio Ambiente), o José Sarney (presidente do Senado) e todos os que fazem parte do processo. Eu não vou falar de ministro, vou falar de ministério. Eu o considero como um ente estranho porque ele tem de se meter em tudo e não tem poder de nada. E é difícil demais você ser ambientalista e gestor público. Alguém vai falar mais alto. 
Comércio - A região de Jaú é conhecida por "selva de cana", uma vez que 70% da nossa terra está ocupada por essa cultura. Corremos o risco de esgotamento dessa terra?

Comércio - A região de Jaú é conhecida por "selva de cana", uma vez que 70% da nossa terra está ocupada por essa cultura. Corremos o risco de esgotamento dessa terra?
Amyra - Claro. Quando você exporta cana, soja, milho, boi, você está exportando solo. Eu falo que a água está comoditizada. O que você tira do ambiente e manda para o processo produtivo vira commodity ( mercadoria padronizada). Nas regiões onde não há água, as pessoas têm de comprar a mercadoria pronta. O que eles estão comprando? Água. 
Comércio - Como se dá seu ativismo na questão israelo-palestina? Ele também tem fundamento ambiental?

Comércio - Como se dá seu ativismo na questão israelo-palestina? Ele também tem fundamento ambiental?
Amyra - Não tem como separar as coisas, quem me conhece sabe que eu sou de origem palestina e pacifista, mas eu sou ambientalista. Eu não acredito em um ambientalismo que não respeita o ser humano. Falar para mim que Israel é exemplo de agricultura sustentável no deserto, mas deixa a Palestina sem tomar água, para mim não é ambientalismo. O que eu faço é ter um diálogo com os setores, não faço nenhum confronto, mas Israel precisa reconhecer o direito dos palestinos de terem seu Estado. 
Comércio - Foi a partir dessa conduta que a senhora foi indicada para o Prêmio Mil Mulheres para o Nobel da Paz? O que significou?

Comércio - Foi a partir dessa conduta que a senhora foi indicada para o Prêmio Mil Mulheres para o Nobel da Paz? O que significou?
Amyra - Fui indicada por mais de 350 entidades e pacifistas israelo-palestinos. Não fui selecionada como uma das mil mulheres, mas fui indicada com muita legitimidade e eu tenho muito orgulho. Quando levo para as comunidades a ideia decommodities ambientais para criar um novo mercado financeiro, estou falando de amenizar os riscos que o atual sistema produz, como guerra por recursos naturais. A indicação que é o prêmio, porque ela é natural, espontânea. 
Telephones +7 (495) 287 41 69


Filha de beduíno, articula o entendimento entre árabes e judeus, motivo pelo qual foi indicada para compor o Prêmio Mil Mulheres para o Nobel da Paz. A ambientalista não mede palavras para defender que ou economia e ambiente andam juntos ou ambos vão desaparecer. Amyra ministrou palestra na Faculdade de Tecnologia (Fatec) de Jaú e concedeu a entrevista ao Comércio no dia 5 de novembro (2009).
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* Pós RIO+20 - Reflexões conceituais sobre a "comoditização" dos bens comuns


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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sem confundir trigo com joio

sobre a citação equivocada de Célia Maria Motta

 
Bens antes considerados completamente fora do mercado,
como a polinização, começam a ser mercadorizados
Por Arthur Soffiati

Pela primeira vez na sua história, a Terra vive uma crise socioambiental planetária produzida por uma única espécie agindo de forma coletiva. Esta espécie é o “Homo sapiens”, da qual fazem parte tanto os construtores dos sistemas capitalista e socialista, ambos responsáveis pela crise, quanto os verdadeiros críticos dela.

Acuado em poucos países, o socialismo já deu contribuição maior à crise socioambiental planetária da atualidade. Hoje, só a China, que ainda se proclama socialista, mas que desenvolveu uma economia de mercado profundamente agressiva ao ambiente, pode ser apontada como representante de uma experiência fracassada. No mais, o capitalismo, na sua versão neoliberal, se expandiu e criou um mundo globalizado, com seus lucros e crises.

A crise socioambiental planetária da atualidade tanto pode se constituir num fértil campo a críticos que buscam saídas honestas para os problemas sociais e ambientais quanto abre grandes oportunidades para ampliar os lucros e aprofundar mais ainda a crise. Os conceitos de “desenvolvimento sustentável” e de “economia verde” são enganosos, pois que usados para convencer os incautos de que os grandes grupos empresariais e os governos estão empenhados no combate à crise.

Estes conceitos procuram demonstrar que a transformação de todos os bens naturais em mercadoria será benéfica para todos. Bens antes considerados completamente fora do mercado, como o ar, a fotossíntese, a capacidade de troca catiônica, a polinização, enfim, os bens e serviços ambientais gratuitos, começam a ser mercadorizados para permitir o avanço do capitalismo e do lucro.

É preciso separar claramente o joio do trigo. Na pertinente análise feita por Célia Maria Motta no artigo “A atualização da crise neoliberal”(*), esta separação foi bem feita. No entanto, ao incluir a economista Amyra El Khalili no joio, Célia foi apressada. Primeiramente por se valer de apenas um título de Amyra, o que é insuficiente para considerá-la uma pensadora que ensina a se aproveitar da crise para ganhar dinheiro. Se outros trabalhos da economista fossem lidos, ficaria clara a posição dela em favor de soluções que superam o neoliberalismo em benefício honesto para o ambiente e os grupos humanos desfavorecidos.

Em segundo lugar, Célia dissociou o pensamento de Amyra da sua ação. A economista não se refugia nos fortins da academia como mera observadora do mundo. Bem ao contrário, ela está no mundo. Ela toma partido. Não é por falar em commodities que apressadamente se pode julgá-la como defensora do neoliberalismo. Quem acompanha a trajetória de Amyra, como é o meu caso, sabe que ela deixou uma carreira brilhante em bolsas de valores para, na sua vida monástica atual, posicionar-se ao lado das comunidades tradicionais, das comunidades quilombolas e das nações indígenas. Como ser humano, mulher e palestina, Amyra defende a causa dos pobres, das mulheres e das nacionalidades humilhadas, como é o caso da Palestina.

Para quem não tira os pés da academia, é fácil cometer injustiças. Como eu tenho um pé na academia e outro fora dela, sei bem como funciona a lógica acadêmica. Mas sei também como é difícil combater verdadeiramente a crise socioambiental da atualidade buscando um mundo melhor para a natureza e para a humanidade. Em sala de aula, Amyra nunca perde de vista a realidade externa. Fora dela, Amyra colhe subsídios e experiências para levar aos seus alunos.


(*) O artigo de Célia Maria Motta, “A atualização da crise neoliberal” pode ser acessado no site da PUC/SP em: http://www.pucsp.br/neils/downloads/1_celia.pdf


Arthur Soffiati é doutor em História Social com concentração em História Ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, integra o Núcleo de Estudos Socioambientais da mesma universidade. Publicou dez livros, além de vários capítulos de livros, de artigos em revistas especializadas e de artigos jornalísticos semanais. Está lançando os livros MÍNIMA POÉTICA e as LAGOAS DO NORTE FLUMINENSE  e será lançada também uma edição comentada do ROTEIRO DOS SETE CAPITÃES, documento fundamental para a história colonial do norte do Estado do Rio de Janeiro.

Comentário de Arthur Soffiati:
Não entendo que a pesquisadora Célia Maria Motta seja intelectualmente desonesta. Apenas considero que ela acabou sendo vítima da academia. Lá dentro, não calibramos as palavras escritas tendo em vista a realidade exerna. Ao situar Amyra como neoliberal, ela se prendeu apenas à letra de um artigo e não procurou conhecer a trajetória da economista nem sua vida pública. Seus trabalhos, palestras, entrevistas e artigos estão ao alcance de todos. Sugiro ler o e-book commodities ambientais em missão de paz, por ela apresentado e de acesso gratuito (http://amyra.lachatre.org.br). Também tenho certeza de que Amyra aceita ministrar palestras para expor suas ideias.

Ao escrever o artigo abaixo, quis apenas fazer um reparo que me pareceu justo.

Arthur Soffiati